segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Quidam




Ontem eu tive a oportunidade de assistir ao espetáculo Quidam do Cirque du Soleil na Marina da Glória, Rio de Janeiro.
Quem já teve a oportunidade de assistir a algum outro show da companhia como o disputado Alegría ou o La Nouba na Disney, sabe o naipe do qual estamos falando. Não é um circo comum. É algo que brinca com a sua imaginação, te atrai para um mundo paralelo onde as coisas não são o que simplesmente parecem. E um figurante qualquer tem o mesmo peso de um personagem principal.
Todo mundo sabe que o Cirque não é um Circo. Ele busca nas origens da arte circense a maior inspiração para um entretenimento de qualidade, sem apelos para métodos forçados como o uso animais no picadeiro. A bizarrice está no próprio mundo que está dentro da lona. Os animais, somos nós, espectadores e artistas e o principal instrumento deles é o próprio corpo, antes de mais nada. A maior obra de arte, para o Cirque du Soleil é o corpo humano. Corpo este, sempre em movimento.
Mas agora sobre Quidam. Assim como enredo de escola de samba, espetáculos deste tipo só podem ser explicados verdadeiramente sobre os própris carnavalescos. Mas isso não impede que quem assiste não crie suas próprias teorias sobre o assunto. É isso que tentarei fazer agora. Quem quiser uma explicação mais fiel à vontade do criador, acesse o site do Quidam.
O espetáculo é marcado por figuras do cotidiano. Essa é a base de Quidam: nos colocarmos no palco, em situações que conhecemos bem, olhares do dia-a-dia. Durante os números, figuras aparentemente sem valor surgem para brincar com nossas sensações. Esses figurantes, sombras esgueiradas durante as apresentações como as de diabolôs, das cordas de pular ou da roda alemã, me inquietaram as duas horas e meia da apresentação. O pai, a mãe, a filha. A filha lembra a figura de Alice no País das Maravilhas: curiosa, meiga, participativa, louca por atenção. A mãe tem um quê de derrota, melancolia, romance. O pai passa uma sensação de severidade, preocupação, solidão.
A mãe olha fixamente para a ginasta que se contorce na seda. Essa acrobata me pareceu representar o papel femino: a mulher se equilibra nos panos da vida, se enrola, faz das tripas coração, se enforca, se balança entre a queda e a segurança. No final só consegue compreensão no próprio colo feminino porque é quase impossível para um homem entender as lutas internas de uma mulher.
O pai caminha no ar com o jornal em sua cara. Suas preocupações, seu emprego, sua mente, seu rosto quase imutável e inexpressivo se movem para outro ângulo de preocupações masculinas. Um mundo que me foge à compreensão por eu ser mulher mas tem a minha simpatia. No final, o jornal se rasga. Suas opiniões pré formadas e impressas no papel também?
Outras figuras lembram a realidade da nossa vida: o lutador, a coelhinha, o aviador, o apresentador, o palhaço (que foi um dos melhores na minha opinião) e principalmente: o transeunte sem nome, sem rosto, que inicia o mundo de Quidam com seu chapéu coco azul. O personagem com o alvo me lembrou dos nossos próprios objetivos, que ficam em nossos corações.
E as bolas vermelhas. As bolas vermelhas chamam grande atenção durante todo o espetáculo. Para mim, as bolas vermelhas são os nossos sonhos. Nossos sonhos que estão muito esquecidos no nosso mundo. Em Quidam eles aparecem como bolas vermelhas. Em certa hora, a mãe carrega um monte delas em suas mãos. Em outra, elas estão estouradas... A filha também carrega essas bolas em determinado momento. E as engaiola. O pai, numa cena tensa, em que parece partir, revela uma bola que escapa de sua maleta durante algo que parecia uma separação. Os outros personagens também deixam seus sonhos voarem numa cena que arrepiou meus pelinhos da nuca.
Quem puder, vá assistir. É lindo, muito bem organizado, bem escrito, figurinos impecáveis. Vá quem gosta de significados escondidos como eu. E também quem só curte as apresentações e acrobacias, que também são incríveis! Aproveite que é por uma boa causa: no início do show foi anunciado que o lucro do espetáculo seria revertido para as vítimas de Angra dos Reis. Mas por favor! Nada de fotografar durante o espetáculo. Que mania feia que brasileiro tem de fazer coisa errada. E nada de dar chilique se receber um puxão de orelha: presenciei um ontem e fiquei de boca aberta. O cara errado e ainda querendo dar lição na funcionária que fazia seu trabalho. Pra quem não sabe, o flash atrapalha a concentração do ator/bailarino/cantor/acrobata.
E quem gosta de música, também vá. A orquestra ao vivo dá um show à parte!
Quidam tem tudo para agradar todos os gostos e ser um espetáculo inesquecível.


1 comentários:

Luiz disse...

Mais uma vez um belo post. Meus parabéns amor!

AMO VC!